sábado, setembro 02, 2006

O Cristo de vila De Cima

Conta quem se lembra que a vila De Cima foi das terras além rio onde a pata da polícia política calcou com mais violência. Embora situada a poucos quilómetros da capital do distrito e duma sede bem municiada em esbirros e grades, De Cima mereceu honras duma delegação local a tempo inteiro pois, conta quem se lembra e é sempre bom recordá-lo, trabalho aos caceteiros era coisa que por lá não faltava. A vila vivia da lavoura e esta servia meia dúzia de senhores que a seu bel-prazer e gosto utilizavam a mão-de-obra como coutada sua, olhando-a com o mesmo interesse com que olhavam o estrume que lhes adubava as terras e as fortunas. Ora, lembram os velhos – que são sempre quem se recorda de tudo, os polícias à paisana serviam-se amiúde dessa espécie animal de fedor desagradável que é o bufo. para trazer a vila e as suas misérias sob açaime. Volta não volta uma conversa à soleira da porta ou em redor duma cartada na tasca do bairro era trazida à liça no posto local, e lá seguiam os proto-revolucionários para a sede distrital onde, com métodos e meios mais sofisticadamente convincentes, tentava-se obter-lhes confissões esmiuçadas. Nestas coisas há sempre suspeitas e circulavam nomes de orelha em orelha, e um dos mais repetidos era o do padre da paróquia, ministro de verbo fácil quando nos sermões invectivava os pecadores e a oposição, e ameaçava com castigos divinos hereges, comunistas e aparentados. Dizia-se que utilizava sabiamente as confissões para extrair denúncias e deslizes às beatas, garantindo assim uma rede de informadoras que cobria todo o lugarejo. A sua igreja, de traço simples mas de sino forte, era bem nutrida em ícones e candelabros, luminárias e altares, e tão rico recheio chegava a ser razão de invejas por batinas limítrofes e mais desafortunadas no património celestial, menos agraciadas com as chorudas e castas esmolas dos senhores da terra e dos seus homens. As acusações de bufo nunca foram dadas como provadas e eram desmentidas com veemência, mais ainda foram quando chegou a hora da reviravolta (há-as sempre, consulte-se um qualquer manual de História).

O certo é que com a chegada da Revolução à vila logo houve quem arregimentasse irado grupo para pedir satisfações ao presuntivo ministro das inconfidências policiais. Reunida no adro a nata revolucionária, a polémica coloriu-se rapidamente pois o padre não era dos de se ficar e, conversa puxa conversa empurrão puxa empurrão, sem se saber bem como aconteceu, à falta de certezas acerca do chibanço batinal a ira voltou-se para a suspeita opulência do templo, ademais incompreensível numa terra onde a maioria da população só usava sapatos para casar ou ir à missa, ambos coisa rara. O alvo foi a mais recente aquisição do cura, um altaneiro Cristo na cruz, cuja, per si, não mediria menos de impressionantes três metros, além do rigor impressionista com que as chagas brilhavam à luz das velas. Reinava sobre o altar-mor (havia um menor utilizado em cerimónias de pendor e ‘contribuição’ mais... populares) e o Cristo na cruz da vila De Cima era afamado em todas as paróquias vizinhas, nenhuma com crucificação passível de lhe fazer sombra. O desaforo ao santo foi incontido, e nem padre nem beatas lhe puderam valer: a insultos tantos foi carregado em ombros e deitado à vala, num prolongar do milenar martírio que acabou por desaguar na vizinha vila De Baixo. Já conto como, e também do epílogo que não o é, pois a saga do Cristo na cruz de vila De Cima está para durar... A dita vala, hoje causa de maus cheiros e mote de eternas promessas eleitorais, era na altura do relatado quase límpida, e muita miudagem e muitos amores floresceram nas suas águas, sendo navegável por quem nela se arrojasse entre as vilas. E foi-o à força pelo dito Cristo na cruz, que, boiando e por milagre não encalhando nas raízes dos salgueiros, deu à costa na raia de vila De Baixo onde foi descoberto, por certo exausto e quase constipado, por quem, atónito, fez o que qualquer um faria perante tão santo achado: o padre da vila foi chamado com a urgência de quem acredita que a Ressurreição estava a acontecer, ali e agora. Os campos que medeiam entre o fim do casario e a vala, então providencialmente em época de pousio, foram vencidos num galopar que fez esvoaçar batinas e alvoraçados corações: ali, em vila De Baixo, onde nunca nada se passava, estava a acontecer um milagre? a sua dedicação à causa divina merecera a maior das recompensas, o Nobel da cristandade? ou tratava-se de alucinações da época, estio tão forte que esquentava ardores em mentes insuspeitas de tais arrojos? Nunca o cura de De Baixo correu tanto, olhos em alvo no grupo que se formara junto à vala e o coração parecendo querer explodir de desassossego. Se as desilusões com a realidade fazem-na afastar-se dos sonhos e das esperanças também não é menos verdade que o que sobra, o que o destino traz, tanta vez vai mais além de fraca consolação e, mesmo sem dar a taluda, oferece de mão beijava chorudo prémio aos que têm fé. De imediato reconheceu no náufrago o invejado Cristo vizinho, o gigante de três metros que, em De Cima, ofuscara qualquer terreno desejo de mais luzes na ribalta aos altares da vizinhança. Assim foi acolhido em vila De Baixo o Cristo na cruz de vila De Cima, com triplo estatuto de ícone sagrado, refugiado político e objecto de vaidade, e por lá reinou no altar-mor que lhe foi de imediato dedicado, altaneiro nos seus três metros, durante umas boas três décadas.

A ampulheta não pára, vira e revira-se, de tanto se virar até as eleições edis em vila De Cima perderam o seu tom vermelhusco ganhando um conciliador ar róseo, e uma bela tarde em que as confissões terminaram mais cedo e não havia beatas para papaguear, o novo padre de De Cima resolveu tirar a velha lenda a limpo e, a pretexto de telefonema de cortesia, ligou para o colega de De Baixo, queixou-se da crise da fé e dos casamentos e baptizados, das esmolas, do tempo, até da pobreza das oferendas das beatas se serviu até que arranjou coragem para, junto do estimado colega e amigo, saber de novas acerca do asilado e, já agora, se não estaria na altura de pensarem em restituir o Cristo ao seu altar natural, i.e., o de vila De Cima, está claro. Será escusado referi-lo mas mesmo assim faço-o: de então para cá as duas paróquias estão em guerra aberta e já houve dois casos de casamentos mistos com oficiamento negado, um para cada lado. O bispo, lá na capital distrital, está farto dos De Baixo e dos De Cima e recusa-se a recebê-los se vierem às lamúrias do costume. As câmaras e juntas de freguesia foram mutuamente aliciadas para a disputa e o pároco de De Baixo até tentou comover o notário da terra para declarar a posse por usucapião do náufrago da revolução. Usam-se todas as armas, extremam-se as posições. Os fiéis evitam encontrar-se pois, sabem-no por experiência própria repetida amiúde, não demora a as conversas descambarem para o assunto de que se fala e acabar tudo ao sarrabulho. As razões dum e doutro lado são atendíveis conforme se more em vila De Cima ou em vila De Baixo: se uns invocam os exageros revolucionários e até recordam as nacionalizações da época que posteriormente tiveram de ser indemnizadas, os outros alegam que o acolheram das águas, cuidaram das suas chagas e oraram-lhe com uma dedicação e fervor que ‘os outros’ nunca tiveram, e prontificam-se em colectarem-se para uma muito pia indemnização se a questão é o vil metal. Inconciliáveis.

O resto da história do Cristo na cruz de vila De Cima que passou a vila De Baixo será um dia escrito. Como as valas são como os rios e a água corre sempre no mesmo sentido, a correr mal para o crucificado a próxima paragem será em vila Mais Abaixo. Onde, soa-se, pelo sim pelo não já há piquetes à vala e, lá dentro doutra modesta igreja, há esperanças e lugar marcado. Disso contará quem, então, se recordar.

1 Comments:

Blogger th said...

Uma delícia, a fazer suspeitar uma história bem mais suculenta, ou mesmo outras histórias com outras personagens e a mesma paisagem.
Cheguei a sorrir, com vontade de rir, ao imaginar as andanças do Cristo e o padre-bufa, de batina à cabeça, caído em desgraça...
vou colocar o link no Xixas.
Disse!

8:22 da tarde  

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