terça-feira, março 20, 2007

masturbações

Tenho catorze anos e ainda tenho medo. Dou-me mal com o meu corpo, que cresceu e fez-me medos. Tenho desejos, o meu corpo tem desejos, imagino todas as raparigas que vejo nuas mas há zonas de névoa que me excitam, que sei de como são esquisitas, feias, mas que me excitam e com o tempo do meu corpo a crescer cada vez mais me masturbo, tenho vergonha e tenho medo.
Fui às putas três vezes. Fi-lo já três vezes. Nunca com 'uma branca', das duas primeiras com umas 'velhas', já mamanas, da última foi a tombazana que me beijou e eu fiquei tão envergonhado que nunca mais fui às putas, nunca mais me repetiram o beijo. Andava a deambular pelas palhotas com o ar óbvio de quem anda à procura do proibido e quer passar distraído, todos e ninguém reparavam em mim até que ela me chamou para o interior, escuro e com cheiros, o fogão com a grelha queimada, a esteira, os vultos pelos cantos, a capulana baixada sobre o quadro de luz da porta e a obcuridade a aumentar, a abraçar o meu desejo, também teu, desconhecida, senti-o, quando me beijaste com fúria, meu primeiro sal. Estavas grávida, é também como o recordo. Senti-me mal com isso, sabia que a gravidez vinha do sexo e, fazê-lo assim, tu assim, fez confusão na minha cabeça de terceira vez. Depois beijaste-me e, aí, aí ganhaste o direito de nunca mais te esquecer, sem saber nem nome nem nada, só que me chamaste e e eu entrei, nessa tarde eu cresci e dei um pulo sem saber. Séculos mais tarde, já o corpo gritava por todos os poros, houve o beijo com a Carla V., que foi tão especial como o são todos os desejados, suspirados, lábios húmidos que se vão namorando até, um dia uma noite calha, se vão encontrar e sorriem no beijar saciador de sedes crescidas, alimentadas no enamorar adolescente, esse encantador preliminar ao Beijo do crescer, 'ser crescido'. Mas o teu beijo, enigmática jovem prostituta duma tarde quente, lá para as Lagoas, o teu beijo foi-me roubado sem eu o esperar: não sabia, nem das duas vezes nem de ouvir falar que vinte escudos também o incluía, a minha vergonha não ia despida para tal intimidade: foi surpresa, e dele tenho o sabor, sal, quente, imperioso, até selvagem me pareceu na decisão, força e ardor.
Gosto de me deitar naquele espaço a seguir à porta, as costas contra o armário e os pés no azulejo da parede, frio, agradável, também para ouvir se quem passa à porta da casa-de-banho se detém a ouvir, se alguém suspeita do que faço lá dentro constantemente, pois a sensação do proibido faz aumentar as suspeitas, o medo. Levo revistas, livros, se para aquilo - quase sempre... - já sei que fotonovelas devo levar, que livros têm as páginas onde se diz e sugere em letras de fogo como se beija até "ela entregar-se-lhe, caindo-lhe nos braços com o suspiro que a mão dele sentiu, ao afagar-lhe os seios...", etc, etc, eu sabia quais e que fotos e olhares procurava para, atrás da porta, cerrar os olhos e lembrar-me.
Ponho-me nu e olho-me: acho-me feio. Corro a vestir-me pois tenho vergonha. Dizem-me 'estás a crescer' e sorriem mas eu não gosto. Eu vejo-me, eles não sabem. Podem suspeitar se me virem muitas vezes na casa-de-banho e descobrirem o que lá faço. Quando saio olho-os disfarçadamente para ver se noto algum olhar acusador e nunca notei nada até ao dia que, entre o irónico e o zangado, me disseram que a partir daí eu não podia fechar a porta à chave. Tive tanta vergonha... Lá, na escola, o olhar para elas e tentar visualizá-las como dizia nos livros ou nas poses e olhares das fotonovelas, tal trabalho de montagem impedia-me de sequer ousar dirigir-me a elas e falar-lhes, com receio de levar o livro à letra e introduzir-lhes a mão nos seios, pronto a ouvir o tal suspiro da entrega e, o resto, haveria de lembrar-me pois já o fizera três vezes. Talvez por isso não houve entrega nem recepção até à idade em que alguns já são veteranos no ofício, mas eu, agora, ainda só tenho catorze anos e isso não me interessa, o que me preocupa e envergonha é este corpo novo que me cresceu e está sempre a gritar-me a sua presença, este ardor, esta porta fechada e este medo de voltar a ser beijado sem saber ou ter lido do sal, do sabor, do calor que nas fotos não vem e não se vê para adivinhá-lo.
Na palhota percebo como o meu corpo de catorze anos tem ainda tanta surpresa para me mostrar, a mim que já o vira nu e não suspeitara, nem quando me escondo atrás da porta dando sigilosamente à bomba do seu crescer. Sal: ele, corpo, gostou mesmo foi do sabor a sal e, após a imagem das loiras de mamas grandes e de suspiros de entregas que me caiem nos braços quando lhes mexo nas mamas, a seguir vem a dum beijo, reteso o corpo contra o armário e a parede, na névoa boa que me invade o cérebro vem a imagem dum beijo que me roubaram, meu imprevisto, bom, primeiro sal e lábios secos e um olhar especial, de animal contente.
Um dia terei quinze, dezasseis, vinte. Ainda me lembrarei do teu beijo, desconhecida tombazana das Lagoas?
("the kiss", de Gustav Klimt, estava aqui. trouxe-o, está claro!...)

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Cai aqui de pára quedas sei lá porque carga de água. E goste ou não goste, só sei se der uma vista de olhos mesmo que seja feita a correr.
Os artigos não deixam de ter algum interesse e variedade mas são escritos com uma dose um bocado grande de ... paciência para ler.
Não fale tanto de si. O narcisismos é uma coisa que cai mal aos outros.

Marieta não vai com as outras

1:00 da tarde  
Blogger Carlos Gil said...

obrigado pelo puxão de orelhas, Marieta.
levá-lo-ei em conta sempre que pensar em si

2:11 da tarde  

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