segunda-feira, março 19, 2007

Tinhas montes de defeitos e mal me começaram a nascer uns pêlos na cara comecei a 'entrar em choque' contigo. Deveria estar a imitar-te em versão modernaça, pois reprovavas a minha maneira de viver assim como eu não gostava da tua e, daí um pouco, eu teria talvez dezassete/dezoito e já tínhamos códigos postais distintos. Hoje, trinta e dois anos depois de teres morrido - olha a ironia: ficaste na terra que detestavas e eu, que a adorava, é que me vim embora..., lembro as divergências e o insensato de quase todas elas: tu, rígido e austero; eu, um esgrouviado irreflectido: ambos nos nossos papéis geracionais aos cânones, mais o exagero da falta de diálogo e, muito, a resistência dum entender o outro.

Tenho das chamadas memórias boas e, nelas, eu de ti, pai, tenho as melhores: de, puto de calções, aos domingos de manhã cumprirmos o 'nosso' ritual e íamos só os dois à Baixa da cidade; ou numa feira do livro na praça 7 de Março, quando lá as havia em volta do coreto, ou então numa papelaria, eu escolhia um montito de revistas de BD e íamos até à esplanada do Continental - o teu café de eleição. E, de em família, passearmos nas noites quentes a ver as montras, esse exercício familiar que era agradável, mais o era pelos momentos que eu e tu passávamos de olhar perdido em sonhos próprios, em frente das montras das casas de ferragens e ferramentas, a olhar a aprender, mais do fomento do sonho - herdei-o de ti, isso é-me hoje indiscutível! -, também os 'carimbos genéticos' da masculinidade que me permitias, imprimias. Se falo dos momentos familiares, dos bons, recordo aquela instituição laurentina que era a 'volta dos tristes' até à Costa do Sol, no regresso o carro estacionado no começo da areia, os relatos de futebol e as brincadeiras, o lanche que a minha mãe sempre levava... e isto na VW Kombi - meu pai era padeiro (a Lisboa nas Lagoas e a Lafões no Malhanga, nesta como 'gerente' do meu tio, o Dionísio da Serrano ao Alto Maé) e só quando fomos para o Malhangalene é que teve uma pastelaria - a Veneza ao lado da Casa Conceição, "tão pequena que nunca lá aportou a gôndola do sucesso" - pois, já mais tarde desses tempos veio o Simca Aronde e a carrinha Daihatsu.

Lembro-me, lembro-me muito, dos teus livros. Muitos, carradas de livros policiais daquelas da colecção Vampiro, mais os Dick Haskins e tantos mais, os livros de best-sellers como os de Irving Wallace, o Conde de Monte-Cristo, calhamaços que nem me impedias e até 'ajudavas' sugerindo agora este, agora aquele... não gostava da selecção que fazias aos policiais e surripiava-te sempre que podia os outros, os escondidos em baixo do monte, aqueles onde além do sangue & tripas havia beijos e amassos, páginas que se tornavam encaloradas e húmidas enquanto os devorava escondido na casa-de-banho de todas as descobertas e iniciações. E, de livros ainda, recordo-me com um sorriso muito especial, terno, grato mas acima do mais terno, de, aquando da minha fase dos 'Os Cinco', da Enid Blyton, andares com a lista dos em falta na carteira para, quando ias aos alfarrabistas em busca dos teus policiais, sempre me trazeres uma prenda, uma novidade, um dos em falta. A tua biblioteca e a de poesia da mana foram os meus 'clássicos', e o ter perdido Eça e outros com essa singular selecção, acho-o conclusão mais do que discutível...

Mas o melhor que recordo era o nosso passeio na Baixa às manhãs de domingo, só tu e eu. Ainda sinto a tua mão no meu ombro, sabia-me bem na altura e hoje sei que me saberia bem senti-la, talvez hoje nos entendêssemos como, àquela época, ainda o fazíamos mas já por muito pouco tempo.

Desses momentos na esplanada do Continental, em que tu lias o Notícias e eu a banda desenhada, há um momento que nunca te contei e aproveito agora: não me caçaste. Na tarde anterior, sábado, eu tinha rogado em casa para deixarem-me ir de machibombo até ao autódromo ver os treinos para as "3 horas de Lourenço Marques" - já então tinha o fascínio pelos vrum-vruns... e que não, e que não, é muito perigoso e longe e sabe-se lá quem lá anda, e não e pronto e estás proibido. E eu fui, está claríssimo que fui, que entre machibombos e boleias pedidas lá cheguei ao autódromo do ATCM, extasiado com a beleza dos bólides, os heróis ali à minha vista, a cada ronco dos motores eu imaginava-me dentro deles, ora neste agora naquele... a minha paixão e a minha desfaçatez foram tantas que, sei lá como, consegui infiltrar-me na zona das boxes para ver ao pormenor as máquinas e olhar esbugalhado os deuses de fato-macaco e capacete! Adorei aquelas horas fugido, e regressei como era mais que óbvio! - eu Tinha razão, não era? - são e salvo a casa, sei lá que mentira inventada a justificar uma tarde desaparecido. Pois bem, naquela manhã seguinte, lá na mesa do café, olho para o jornal que lês, à maneira clássica com ele levantado pelas duas mãos e, nas folhas viradas para mim vejo uma reportagem sobre a sessão de treinos da corrida - que seria nessa tarde!..., documentada com algumas fotografias: numa, debruçado sobre a traseira dum Chevron B8-BMW que era lindo de morrer, a examinar por certo minuciosamente o motor e redondezas, a cabeça naturalmente baixa por inclinada e a face em tons mais semi-indefinidos tons cinzentos na fotografia, estava eu... aliás, a roupa era indesmentível… o que suei fininho, o que deverei ter inventado para, nessa manhã, se abreviar o ritual de leitura 'pai-filho' na esplanada do Continental... Salvei-me, salvei-me por certo dum enxerto de porrada pois, se até poucos leveis, sabia já por experiência que a 'infracção' que cometera era razão sem apelo para 'comê-las', mais outros castigos que ainda viessem. Mas safei-me... bom momento este, que recordo.
Mais tarde incompatibilizamo-nos profundamente. Pouco depois faleceste e disso e disto não estou preparado para falar. Hoje, para além da natural pena de não ter vivo o meu pai, avô dos meus filhos, acresce a da certeza que, com tolerância e aceitação mútua de maior empenho que aquele que tivéramos, íamos 'entender-nos'. Íamos, pai, tenho a certeza. Que é do tamanho da falta que sinto de ti, hoje, hoje e há tantos anos a mais.

Carlos F. M. Gil Barreiros
(imagem da escultura em arte shona "like father like son", gamada aqui.)

6 Comments:

Blogger th said...

Gostei sobretudo que tenhas falado do teu pai, e da maneira como o fizeste.
Expurgar ressentimentos é bom para a nossa paz interior, gritar mágoas, exorcizar os nossos demónios...
Um beijo, th

9:03 da tarde  
Blogger IO said...

Lindíssimo e sentido 'post', para variar, Gil!!
E já agora, li 'algures' que a webita voou, não serve de desafio ao pai?...
Beijo, gostei muito, muf'.

11:53 da tarde  
Blogger ELCAlmeida said...

Depois de eles partirem sentimos cá uma falta...
Kandandu, amigo
Eugénio

12:12 da manhã  
Blogger Madalena said...

Embora se trate de uma relação necessariamente diferente, onde o factor de identificação fica para segundo plano,vejo nesta figura paterna o mesmo lado amigo que tive a sorte de viver com o meu pai. Ainda não digeri o desaparecimento físico do meu pai, mas é normal: passaram só 2 anos. Mas tu, Carlos, consegues dar uma vida muito viva ao teu, apesar dos 32 anos que já passaram... A minha admiração para ti. E um abraço.
(Brinquei muito em frente à Lafões!!!) madalena

12:33 da manhã  
Blogger Madalena said...

Embora se trate de uma relação necessariamente diferente, onde o factor de identificação fica para segundo plano,vejo nesta figura paterna o mesmo lado amigo que tive a sorte de viver com o meu pai. Ainda não digeri o desaparecimento físico do meu pai, mas é normal: passaram só 2 anos. Mas tu, Carlos, consegues dar uma vida muito viva ao teu, apesar dos 32 anos que já passaram... A minha admiração para ti. E um abraço.
(Brinquei muito em frente à Lafões!!!) madalena

12:33 da manhã  
Blogger António Oliveira said...

Fiquei sem palavras.
Gostei do que li.
Abraço

2:10 da tarde  

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