terça-feira, janeiro 23, 2007

"Louvações das línguas e das nações"


de Jorge de Sena; in "Sequências", colecção Círculo de Poesia da Moraes Editores, 1ª ed. de Julho de 1980:
.......
Em louvor da boa linguagem
Lendo asnos do seu tempo
Filinto disse: -
«A boa linguagem dá batecús da raiva».
(7/dez/1970)
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Em louvor do Brasil
Tal pai tal filho
(7/dez/1970)
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Em louvor da Irlanda
Embebedados pela Inglaterra, capados
pela padralhada, enfascistados
por uma democrática opressão:
que diria Gulliver se visitasse esta nação?
(onde seu pai viveu e foi até deão).
(7/Dez/1970)
.......
Em louvor da língua portuguesa
Tão forte e tão hipócrita que até
usa nome francês para dizer
o que - heroicamente - faz
todos os dias
à cona da mãe.
(7/Dez/1970)
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Em louvor da Itália
Roma, Veneza, Florença, Nápoles, spaghetti,
e os papas. Tanta beleza humana
numa terra dura e de ladrões.
Mas quantos séculos para estas pontes
e o jeito de roubar como de amar a vida
com tal volúpia que o roubado sente
o dever estrito de ficar mui grato.
(7/Dez/1970)
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Em louvor da França
A maior glória de países como a França,
não está em com que ela sorbonando ou saintmichelando
vos enche a pança.
Mas sim em que por mais que os antigos e modernos
sejam pintados de clássicos puriternos,
ou que por mais que baratas surrealistas
debiquem pelos quais suas alpistas,
há sempre uns poetas ou mesmo uns académicos
um poema ou verso ou vida que totémicos
vos dão no estômago um coice «mais du bon»:
oh ces mauvais garçons, oh ces mauvais garçons!
(7/Dez/1970)
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Em louvor da Inglaterra
Escota, céltica, saxona, e escandinávia,
normanda e fideputa, imperial (pifou),
deu Távolas Redondas, gentemen, e hoje
os peidorrentos filhos de Welfare State.
Mas os poetas, os castelos, catedrais, os parques
e Londres, Londres, e essa língua obnóxia
ora latido ou música, e o passo
da liberdade como névoa ao fundo!
(7/Dez/1970)
........
Em louvor da Alemanha
Imperiais, burgueses, grosseria
como de duques de uma Idade-Média
sonhada por românticos no vómito
da cervejaria a mais - e todavia
a pompa de sentir que a realidade
é como esse equilíbrio de ser besta
à beira de sonhar-se o universo.
(7/Dez/1970)
.......
Em louvor da Espanha
Há ou não há? E o vício solitário
de ser-se castelhano, promovido
à escala de uma Ibéria, sem lugar
para outras línguas, outros povos, nada?
Se um dia isto acabasse! Era tão belo!
Mas quase não restava que louvar.
(7/Dez/1970)
(bonita imagem encontrada aqui.)

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