domingo, janeiro 21, 2007

nota de leitura: "Diário da Guerra aos Porcos", Adolfo Bioy Casares


Este post serve-se num mail: o meu comentário após ter lido o livro, a quem mo emprestou com recomendação.
Pois claro que num mail há observações pessoais que, aqui, sala pública, não têm razão de se mostrarem. Algumas até, iniciando-se no tema 'o livro' sobem por aí acima até esferas de conversa particular.
Mas o sumo dele, mail, era a resposta ao comentário quando mo foi passado para a mão: "- a trama, 'a guerra ao porco', o final; é um livro... perturbante. depois quero ouvir a tua opinião".
Aqui em resumo-alargado ao mail, ou seja com partes passadas a crivo e outras estendidas como a massa folhada, eis o que me ficou após ter lido este livro.... perturbante:
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autores hispânicos:
Primeiro disse-lhe que tinha gostado, e muito, da escrita do Casares, que não conhecia assim lido. Era um nome vago, apenas: da América do Sul e hispânicos pouco li além dos tradicionais, quer os de agora ou os 'clássicos' que já vêem de tempos mais jovens. Por isso ler o Casares, neste livro, foi uma maravilha. E não admire o adjectivo e não o substituo: felizmente quanto mais leio mais percebo que muito mais devo ler: há tanta coisa bonita, bem escrita, e que ainda não li... Deveria ter 'desconfiado' com a referência ao Casares ter sido 'Cervantes': certamente não o dão a qualquer um, e a escrever bem em língua espanhola há 'carradas': aqui ao lado, na matriz dela, estou sempre a espantar-me, quanto mais 'investigo' saltitando dum para outro, à mão duma busca que, se antes era muito fortuita, agora está a tornar-se 'recorrente': não me refiro só ao meu actual casal de preferências, Rosa Montero e Arturo-Pérez Reverte, mas também ao Cela, que tem coisas magníficas e proporcionais ao seu mau-feitio, Carlos Ruiz Garzon de quem li um único e fiquei com vontade de mais-mais, Munoz Molina e o Ballester. Se na península pelo menos os 'principais' vão estando debaixo de olho, já lá pelas américas é mais complicado e, tirando um Santiago Gamboa que descobri num pequeno conto e jurei ficar cliente logo que possa a mais avio, há 'os' Sepúlveda e GG Marquez, o Vargas Llosa e pouco mais. Muito pouco. Lembro-me dum mexicano de que li um único, Paco Tabio, salvo erro chamado "Escrito a quatro mãos", mas, tirando estes e mais os correspondentes 'clássicos de época', Neruda e Borges, pouco mais há por mim lido: nunca gostei muito da Isabel Allende, perdi o rasto ao Skármeta já há muito tempo, Laura Esquível não me atrai. De cubanos, por exemplo, não tenho ideia de ter lido nada deles nos últimos tempos. Mas mesmo assim há alguns 'lidos e a ler mais', e agora junto-lhe o Adolfo Bioy Casares, Argentina.
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o Adolfo Bioy Casares:
Ele é bom. Se lá para o meio se começa a perceber o que é realmente "a guerra aos porcos", quem são os suínos e porque é que são apedrejados, não só a ideia (terá 'havido' Malthus? lembranças do "Ensaio sobre o princípio da população"?) é original - que eu conheça ou me lembre - em tratamento romanceado que, alargando-o a uma "guerra civil" vai além do 'dramático' caso-romance individual, como, o final, é dado "ao contrário", e em rápidas estocadas: capítulos curtos, e poucos, para um desfecho que acaba por surgir nada atamancado, até lógico após a surpresa...
Depois há a forma de escrita, como trata o diálogo que é, para mim que não sei lidar com ele, sempre razão para muita atenção quando o encontro, assim fluído e natural, bem tratado, com travessa ao lado bem fornecida das observações e pensamentos que melhor traduzem o cenário e as emoções, mas, sempre, com o diálogo como peça principal no prato. O Casares é mesmo bom. Logo que possa, hei-de ver se leio mais alguma coisa dele.
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"Diário da Guerra aos Porcos": Thomas Malthus revinventado por um ficcionista do (nosso) quotidiano:
Mas indo ao tema, à "perturbação": "- Extremamente perturbante, entendi-te. Esta guerra é a 'outra' e a 'nossa' guerra parodiadas em excesso" - disse-lhe, e depois mais ou menos assim: "E o que é o 'excesso'? ele espreita... é circunstancial, civilizacional. Numa ocasião e num lugar é-o, noutro não. Não é excesso por aí além tu, cá, guiares como uma doida - e faze-lo: não costumas utilizar os piscas! tss tss... ; mas cumpres o código num país dos fundamentalistas de barbas e turbante, com piscas e tudo, e vais presa: um dos seus "excessos" civilizacionais; a relatitividade cultural a reduzir o 'excesso' a pormenor geográfico. 'Lá', nalguns 'lás' que os há, nem que sejas a 'presidenta' da PRP podes guiar automóveis, pois entende-se que quem tem air-bags naturais não pode estar atrás dum volante, ou por esta biológica razão ou por outra qualquer de que não recordo a certamente profunda verdade!..."
Depois continuo:
"Cá, agora: as reformas mais as pensões, e fazendo agulha aos "velhos": dá-"lhes" o pretexto para o Excesso, a gota que espreitam, desculpabilizante, um ou dois loucos com púlpito e virados ao contrário ou para o lado que quiserem e lhes calhar, e tens a ameaça dum excesso. Sabes que é hábito aqui, interior, quando 'os velhos' chegam a certa idade, num conjunto de 'garantias' para que as suas necessidades precárias sejam asseguradas pelos filhos (comida, fraldas, médico, ao menos isto), também pela necessidade dos 'novos' em fazerem o seu próprio ninho e nem sempre há carcanhol para fazer ou comprar uma casa, eles, os 'velhos', cederem/doarem-lhes a casa de habitação familiar e vão viver lá para trás, para "o fundo do quintal"? doam a casa aos filhos, normalmente estas casas populares, térreas e com um bom pedaço de quintal/machamba, onde por vezes mais duma geração construíu anexos, um comboio de quartos e cozinhas, armazéns e sei lá mais o quê: a 'sua' casa. Vão lá para trás, para o fundo do comboio, o anexo, o depósito dos 'velhos'. A Guerra aos Porcos em brandos costumes, se calhar o Casares leu em turismo rural o Thomas Malthus"
Um saltito e...
"O abaixo ao fim da vida com dignidade. Com reformas não contestadas. Toda a gente se esquece de repente que, quem as tem, descontou mês a mês para elas numa vida inteira (borrifa-te para as excepções: isso não é conversa, conta é a regra quando se analisa no global) Essas pessoas deram-se a um luxo a que tinham direito, julgavam...: sonhar. Com a sua reforma, que hoje vê-se já quase quimérica e, se não, olhada de lado pelos 'outros', os 'jovens' desta nossa versão soft da "caça ao porco". A guerra aos porcos, sejam eles quais forem quando tememos que mexam no nosso bolo, mesmo que seja um bolo que ainda não veio para a mesa, mesmo assim olhado como um 'direito natural' individual que ninguém pode contestar, prerrogativa do existir, mas, pra ciosamente o assegurar, 'defendendo-o' já com ataques aos que, afinal, só gozam ou prevêm já gozar... direito 'natural' igual. Noutro tom e cor, também o racismo: é outra 'guerra aos porcos', exemplo máximo entre nós o histerismo que houve com a inventona de Carcavelos, onde se fabricou o arrastão dos pânicos onde uma ondazita 'gamou', dados oficias e depois tornados públicos quase em rodapé, um telemóvel e um saco de praia, umas poucas toalhas. Fraca onda, qualquer taberneiro de luxo que se preze faz melhor ao apresentar a conta" Para fechar esta parte:
"E nem sempre é assim, mas é sempre preferível uma guerra aos porcos quaisquer, 'os velhos', a reforma "prematura" e "choruda" dos 'velhos', um altar qualquer para incendiar que se invente para, virando a cara para o lado, mandar-lhe umas pedras e partir-lhe uns vitrais. O excesso espreita nas atitudes colectivas, mais ainda quando os que 'sabem' se apercebem que, elas, 'massas' e suas investidas ao capote agitado, sendo assim manipuláveis, pondo-as em tropel delas recolhem ganho ou vencem intento: o Farel*, o dos programas na rádio, lembras-te?"
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E esta frase, já na parte final do romance, "traduz-me" o sentimento que alastra no livro, na 'guerra ao porco'...:
(Tuna para Isidro, num dos «bares das músicas»:)
" - Como aquele que garatujava 'Angélica continuo à tua espera' nas paredes do hotel de Vilaseco? Olha, as pessoas estão escaldadas, evitam complicações e toda a gente aprova os que desatinam"
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End of story, 'valeu': o ano de leituras está a começar bem, oxalá se mantenha...

* personagem do livro, político extremista e de discurso demagogo com um programa de rádio doutrinário e "incendiário"

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