quinta-feira, dezembro 21, 2006

o Criador e a Criatura

Há momentos em que me sinto no blogue como um chefe-de-redacção de jornal das '9 às 5'. Agora a página cultural, depois as notícias e não esquecer as polémicas que atraiam leitores, os 'hits' e a "secção para homens" com impossíveis sonhos em quatro rodas e, houvesse habilidade para isso não faltaria um mui inteligente sudoku. Nem com suplementos a cores se safava, pasquim fazes pasquim serás.
Há quanto tempo este blogue não fala em mim? que é isso, companheiro? reservas, agora? pudores ou medos? crises de identidade; o duelo do Criador e da Criatura, ele temeroso das pródigas inconfidências dela, o primitivo pavor de mostrar antes de o ser, ela arrojada e pouco prudente no pensar alto, pior ainda no sonhá-las.
Há muito muito tempo atrás, quase noutro tempo-outra vida, encavalitei três pedrinhas em cima umas das outras, que se aguentarem e não caíram e julguei-a torre, eu castelão senhor de férteis regadios que colheriam abastança, fortuna, pib acelerado e muita, muita fama, mercê arado afiado que escreveria sem parar. plof. Fui sineiro da torre e bramei aos fiéis que acorressem à précita diária, vigiei-lhes presenças e ausências em sitemeters e outras coisas tais. Fui tolo, tão tolo que hoje sou chefe-de-redacção dum magazine de fait-divers com mais sobras que consumos, enfadonho 'das 9 às 5' - e se assim falo de mim que dizer dos resistentes ou do ar de espanto de quem vira a esquina e dá com terras assim áridas do que vale e presta, ausente, fugido o oxigénio e eu sei porquê: por medo, tanto medo de mim.
Calimero. Soa, não é? cada qual faz a cama em que se deita, não há avó que não o diga mesmo que o seu querido neto seja bloguista ou chefe-de-redacção. Eu até acho que sei o que falta, o que se perdeu após a tal torre das três pedrinhas ter ruído e deixado os calhaus espalhados por tudo o que é post à vista: tomates. Ando a ler "O Livro do Meio" de Maria Velho da Costa &, li há tempos o "Bilhete de Identidade" de Maria Filomena Mónica (esqueci-me de arrolá-lo na "lista do ano", fica agora), noutros tempos noutras idades li Kafka odiando o pai, Mastroianni confessando que sim, vivi, "sim, bem me lembro" ou título que o valha, e em todos estes ou outros livros onde o suporte é a memória há uma constante que torna sedutora a sua leitura: o dessasombro, o destemor, o implacável olhar sobre os outros e de si mesmo: tomates, senhores, esse vegetal que salada a escrita e torna-a nutritiva, cobiçada refeição recomendada aos doentes de tédio e outros seres de livraria, onde se perdoam pormenores de estilo pois é a substância alimentar que conta, farta e rica, não o berloque que remata a escrita e faz suspirar os amantes de Florbela, o ágil flic-flac erudito que salga desertos com citações-monumento. Fui-me, não me vim, plof.
São, agora, umas uma e vinte da madrugada. Está frio, contam e sinto que o rigor está aí, espreita e veio para ficar. Hoje, ao longo de todo o dia útil espreitei-o uma dúzia de vezes, olho a Criatura com ódio mas mantenho uma fixação nela como se fosse única jangada em tanto mar, tanto frio. Esteve para ser mas não foi, ficou-se nas meias-tintas e olho e estou apeado, eu condutor eu chefe-de-redacção dum jornal que faço mas que não é o que gostava de ter, ler para ser lido. Calimero, outra vez: fá-lo.
Sempre detestei espartilhos, horários fixos e disciplinas de trabalho. Sempre me defendi com argumentos tipo 'os resultados é que são fundamentais', e a vidinha de cada um é cada um que a gere. O '9 às 5' horroriza-me pois assassina a parte potencialmente útil do tempo que sobra, tal a necessidade de esquecer a violência intelectual de, das nove às cinco, não viver - e isto não é uma metáfora: alugando em exclusividade o meu cérebro mato a sua capacidade de me acariciar, de criar, artista masturbador que sou.
Numa certa vez, há muito muito tempo atrás, eu criei um blogue. Num tempo antes do sitemeter, antes de fazer dele horário e fustração. Era prazer. Era também a reconstrução de mim que, então, tanto dela carecia. Livre, solto, sem espartilhos e sem medos contei de mim e das minhas memórias, revisitei-me com espanto diário ao descobrir que, afinal, eu fora rico em ter vivido e possuído tanta pequena coisa que a lupa do tempo mostrou noutra dimensão, bela. Sem medo de contá-las, partilhá-las. Era prazer. E veio outro e outro. Mas se o primeiro foi no tal tempo antes do sitemeter (antes de fazer dele horário e senti-lo fustração), com a profissionalização feneceu a frescura e nasceram o horário e a missão de chefe-de-redacção, 'das 9 às 5'. As três pedrinhas ruíram e veio o vazio, profético, espelho onde estão só sombras, sombras e lê-se plof.
Hoje, que fazer à Criatura? gritei berrei e chorei pelo "não" à IVG por amuo, não faço a sua variante blogueira pois reconheço alguma verdade à crítica calimérica. (agora são 2:14, e eu nisto...) Eis! eis que num apontamento de margem vem a solução dos irresponsáveis, o adiar de conclusões e o conselho-amigo de dormir sobre o assunto pois em milagre durante a noite dos justos e dos injustos aparecerá a fada-madrinha e tudo resolverá: amanhã é outro dia, fórmula mágica que tudo adia e nada decide nem resolve (este post, que teve momentos em que se mostrou prometedor, descambou. medos. também horários - a pecha existe e não vale a pena enganar-me mais: amanhã há horários para não vir aqui, e é necessário dormir sobre o assunto. talvez um dia isto resurja como memória, dourada pelo tempo que lava e ajuda a tinta que a conta e escreve)
Até amanhã, das nove às cinco, pena por cumprir, minha outra que não escreve nem diz do lamento de não poder fazê-lo assim, livre, como me julguei e acreditei durante demasiado tempo, já agora só mais umas horas enquanto vou 'dormir sobre o assunto'. 2:28. Nestes números nestas letras deverá ler-se "está tudo dito", ou quase.
.................................
Adenda: este post tem um pedido de desculpas aqui.

6 Comments:

Anonymous IO said...

Um beijo, web, e faz-me um favor, trata de ti!! - 15 beijos, muf'

3:41 da tarde  
Blogger Carlos Gil said...

:-)

4:35 da tarde  
Blogger th said...

Passei por cá, escrevi, mas o comentário desapareceu...

8:54 da tarde  
Blogger th said...

Dizia eu que tinha gostado da escrita, mas o mesmo se não podia dizer dos "humores", e que seria uma chatice se estivessemos sempre "bem"...
Beijo...e trata-te...lol

9:15 da tarde  
Blogger Carlos Gil said...

Este comentário foi removido pelo autor.

1:37 da manhã  
Blogger Carlos Gil said...

yes 'mam! e manterei o garbo e a fé no 'sobrevivente' que sempre fui!
beijoka mt grande para ti e para a fif'
:-)

1:43 da manhã  

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