sábado, dezembro 09, 2006

Lidos este ano - I

Assim de rajada e após algum trabalho a vasculhar lombadas:
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A sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafon, muito bom; finalmente o badalado Código da Vinci de Dan Brown, viciante na leitura mas com armadilhas que, a olho nu e agora muito mais, à distância, não são o meu conceito de "boa escrita"; Equador, Miguel Sousa Tavares: a maior surpresa dos últimos tempos pois não esperava ‘tanto’ do MST-cronista, sendo que ‘Sul’ não é um romance e este foi o melhor que li em todo o ano; O outro pé da sereia, Mia Couto, a perder fôlego nas últimas páginas; A Pluma caprichosa – I e Mala de Senhora, Clara Ferreira Alves, aquele o que se sabe e este muito agradável; Algures no tempo, Não eram aves marinhas, O Pelicano Velho e Ao Ritmo da Memória, Glória de Sant’Anna: o primeiro título a melhor poesia lida no ano (ex-aequo com Guita Jr.) e onde realço os poemas dedicados a Eugénio Lisboa e a José Craveirinha, e o conto infantil (O Pelicano velho) simplesmente delicioso, uma prenda perfeita para as crianças reais e para as que ainda moram em nós; a tal edição em catorze volumes da discografia completa de Mário Viegas (organização de José Niza) editada por um diário, sendo que cada cd vem com o livrinho da praxe e por via disso muita da poesia ouvida foi acompanhada da sua leitura, aproveitando para documentar os olhos com imagens históricas e saber mais da vida e arte do Mário Viegas, filho do "dr. Viegas de Santarém", um Senhor e uma Personagem com quem ainda lidei residualmente, de que recordo o bom humor e a naturalidade com que a sua muita cultura brilhava sempre; ainda na poesia folheei muito da Antologia poética de Natália Correia (com org. de Fernando Pinto do Amaral), a saudade de reler alguns poemas e a descoberta de tantos; bastante O’Neill, por aqui e por ali mas sendo ano em que o book da sua ‘Obra Completa’ me passou muito tempo na mão, felizmente; "Mon prope drôle II", Serge Gainsbourg: fiquei na mesma de que se não o tivesse comprado.
Uma aposta no escuro que foi Contos Apátridas, com os cujos de Bernardo Atxaga, José Manuel Fajardo, Santiago Gamboa, António Sarabia e Luís Sepúlveda – este o que me fez largar os cinco euros mas a descobrir Gamboa e a pensar que, só aí, encontrei uma de cinquenta; do Sepúlveda também a sua recolha aos ‘Moleskines’ cheios que mergulham nas gavetas em ‘Uma História Suja’, um livro que parece um livro de blogue; dele comecei agora outro, recente, que é igual, outra recolha de crónicas: O Poder dos Sonhos. Comprei Residência na Terra, de Pablo Neruda, por não o conhecer e valer sempre a pena fazê-lo, o Poeta: confirmou-se, principalmente quando lidas em voz alta as páginas ímpares e sente-se a fonética da inabitual poesia da língua espanhola; do ‘grande’ John Grisham despachei O perdão, O último jurado e A Conspiração, e também acho que embora ainda seja o grande mestre do thriller judiciário fez bem em entrar nos terrenos de O Perdão, pois Carré precisa de competição, e ele, Grisham, anda a ficar sem tema no campo onde ganhou fama e fortuna. O melhor livro-documento do ano já é o primeiro volume do Quase Memórias de António Almeida Santos (já o comentei mais ou menos assim em post anterior). Igualmente do género thriller policial e de espionagem, e sem surpresas – está escrito por quem o tema e género não escondem nada, mas, há, sente-se, lê-se nos últimos romances cansaço e dificuldade na mão – veio O Vingador de Frederick Forsyth: banal, lê-lo foi cumprir de calendário; Encontro-te em Moçambique, comprado pelo título e pela curiosidade pois nunca tinha ouvido falar no autor, E. A. Markhan: vou continuar na mesma ignorância, obrigado.
Mais de autores moçambicanos (já falei no Mia): de João Paulo Borges Coelho Setentrião e Meridião, deliciosos muitos dos contos; dele ainda está por arrancar Crónicas da Rua 532.2, já comprado na altura do Verão mas por isto e por aquilo ainda não começado; não conta portanto para o balanço mas espero continuar a gostar da forma de narrar. Por falar em "forma de narrar", da actual ‘menina dos meus olhos’, António Lobo Antunes, li o Eu Hei-de Amar Uma Pedra e os volumes dois e três da recolha de crónicas. Que é que posso, o que é que alguém pode dizer mais? o romance, e após ganhar velocidade de cruzeiro, é empolgante e tremendamente bem escrito, entranhando-se quando se sincroniza o sentir com o lido; e as crónicas de ALA são o retrato de Portugal: desanca-se, desancando-nos; a mentalidade nacional pequeno-burguesa, a crosta salazarenta que colou e não despega nos medos do quotidiano, as ‘vidinhas’, ricas de nada... ninguém conta isto como ele. E o escreve assim, perfeito. Venham mais. Já está em lista de espera e ali a olhar para mim o novo, "Ontem não te vi em Babilónia", mas é coisa para se ler com fôlego e espera auspícios de quanto o frio apertar mais.
Correndo os olhos (estou sentado a olhar para eles)… que mais? sei que alguns Fernando Grade e que não conhecia, uns comprados e outros oferecidos pelo barbudo mais famoso de Portugal, poesia em capa própria e nos eternos ‘Viola Delta’, mais uma recolha de crónicas dos tempos do jornal ‘Record’; também li amigos e outros amigos-ainda-desconhecidos que entraram no nº 3 dos Cadernos Moçambicanos Manguana, onde eu também juntei umas coisas; dum deles, do Delmar Maia Gonçalves, refiro além da tal edição colectiva o seu ‘livro de mangusso’, Afrozambeziando Ninfas e Deusas, e para a semana lança outro, ele não pára!; de Wiliam Faulkner O Som da Fúria, não me pareceu o que o gabam. Ainda sobre tema "colonialismo" e aparentados, pois é obrigação ler tudo o que for possível pois, meu caso, ainda estou por perceber totalmente a cambalhota que a minha 'vidinha' levou, Confronto em África de Witney W. Schneidman e Operação Mar Verde de António Luís Marinho, e arranjei um magnífico primeiro volume (parece que só na própria Torre de Tombo há à venda o segundo) "Guia de Fontes Portuguesas para a História de África", edição do Instituto Português de Arquivos, que pelo menos me dá ideia do que há e onde há, e como se encontrar, se houver paciência e necessidade (por esta ordem); do inhambanense Guita Jr. li ‘Os Aromas Essenciais’; gostei muito: bom poeta e com a melhor matéria prima do mundo – por alguma razão natural vem de Moçambique muita da melhor poesia que se faz em língua portuguesa…
Uma amiga ofereceu-me, a malandra, "O dia em que o Pato Donald comeu pela primeira vez a Margarida", do angolano João Melo. Pois… adorei o gesto e o livro tem-me muito mais valor pelo que representa numa amizade, na curiosidade dum nome e dum pequeno segredo público que nós partilhamos (a "Margarida" e o mangusso que fica de olhos vidrados quando vê este nick nas mensagens nos net-grupos) que pela valia literária. Lê-se, e esquece-se rapidamente. O Último Papa de Luís Miguel Rocha foi penoso de levar ao fim. Novamente a confirmação de que Bill Bryson é o melhor escritor de viagens, em ‘Notas soltas sobre um país grande’, que será um ‘Borat’ com "estilo" no ridicularizar o way of life norte-americano. Quem quer ser Bilionário?, do completamente desconhecido Vikas Swarup, foi uma óptima leitura entretenimento até ao fim: pouco no género se pode gabar do mesmo… O terceiro volume da biografia de Cunhal, afinal a história do PCP, de José Pacheco Pereira, foi religiosamente levado á última das páginas: não conheço melhor documento, tão pormenorizado e re-documentado, sobre a história da resistência ao fascismo cá entre portas. Desiludiu-me muito o Memória das Minhas Putas Tristes do Gabriel Garcia Marquez: achei-o fraco face ao ADN, mas afinal ‘Cem Anos de Solidão’ só se escrevem uma vez na vida… Li, mas penou para chegar a isso, A Encomendação das Almas de João Aguiar; foi a primeira obra que li deste escritor e estou tão mal impressionado que recordo-me de terem havido alturas em que resmungava em como ele até conseguia escrever pior que eu... a virgulação é simplesmente horrível.
Mais, descobri puramente ao acaso Eu Vivi África, edição da própria Maria Félix que é uma scalabitana que não conheço, e que foi simpático ao deixar-se ler. Emprestaram-me, li, e gostei, "Íntimas Suculências" de Laura Esquível ("tratado filosófico sobre a cozinha"): não me fez esquecer os termos de comparação que aí tenho: o soberbo 'A Honesta Volúpia - cozinha para homens' de Alfredo Saramago, e o Afrodite de Isabel Allende.
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outro dia continuo

2 Comments:

Blogger th said...

Meu Deus...como me senti pobrezinha e ignorante...e envergonhada. Beijo e continuação de boas leituras, th

11:14 da manhã  
Blogger Carlos Gil said...

parecem mutos mas não o são, Theo. há ali books que se aviam num ápice, tudo espremido há uma meia dúzia de obras de fôlego... e o ano é grande, e tu sabes que eu não vejo tv, raramente perco um serão no treco-lareco dos cafés... e, acresce em minha vantagem, também o sabes, moldo horários ao ritmo das necessidades e dos gostos.
vergonha... vergonha tenho eu perante ti e tantos, nu perante a tua, vossa, sapiência natural, não induzida nem injectada...
um beijinho muito terno

6:12 da tarde  

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