quinta-feira, março 01, 2007

os eleitores não são estúpidos


Nem o parecem, mesmo quando 'se perde' e lá vem a desculpabilização das más opções próprias, atribuindo culpas a 'eles' e à sua incapacidade de ver e entender a Verdade.
Isto a propósito de submarinos. Dos nucleares, ainda por cima: daqueles enormes e ameaçadores (ou tranquilizadores, depende...) e, também, a propósito de sentimentos nacionalistas, ou chauvinismo - fronteira mais ténue do que aquela que vai daqui para ali. Já agora junto à caldeirada marketing mediático e passo a explicar a razão dos ingredientes:
França, 2007, candidaturas para as eleições presidenciais. À esquerda alinha-se como candidata uma mulher, rosto e modos agradáveis, mediáticos, Ségolène Royal. À direita veste camisola e entra em campo como 'capitão' o ogre nº 2, pois o '1' é o eterno le Pen, Nicholas Sarcozy. Parece ganho, não é? afinal ela representa a mudança entre as carcaças do costume, as gelhas da velha democracia, o seu rosto é belo e é sereno tal como num anúncio de, digamos, chás de erva-lima ou iogurtes linha-zero. Não, não é, não "está ganho". Mas era assim que as sondagens diziam, diziam até ela começar a falar: aí começam a derrapar, a resvalar, os proto-eleitores tradicionais do seu clube a refugiarem-se ou no silêncio ou no declarado 'não': Ségolène não "acerta uma" quando as perguntas caiem sobre matérias chatas, como algumas das previsivelmente inerentes ao conhecimento... dum Chefe de Estado. É aqui que entram os sub's, mais o chauvinismo.
A França é um dos tradicionais do "clube nuclear". A França, duas vezes invadida nas duas guerras mundiais, é chauvinista q.b. quando se trata da preservação do que entende como 'sua segurança', independente de alianças e tratados onde ela se imagine, ou seja-o de facto, subalternizada: recorde-se a sua saga com a NATO, a exemplo. Vai daí a França desenvolveu as suas armas nucleares próprias, e equipou com essa tecnologia avançada parte da sua Armada, porta-aviões e submarinos. E, parece e consta, os franceses têm orgulho nisso. Tal como o possuem adicto a coisas muito suas e que não querem nem perder nem verem esquecidas, sejam elas as mil e uma variedades de queijo, o pão-cacete ou, melhor exemplo de todos, a sua língua. Ainda bem, a sua identidade cultural passa por aí.
A boa da Ségolène, perguntada, não soube dizer quantos submarinos nucleares a França tem. Daí não viria mal nenhum ao mundo ou à França se, a) ela não fosse um dos (fortes) candidatos a Presidente da República, como cá por inerência chefe supremo das forças armadas, b) não tivesse demonstrado que a resposta certa tanto podia calhar ser 10, 50 ou 100, ou zero, que ela não tinha rigorosamente a mínima ideia de qual seria a acertada, sequer a aproximada. Os franceses, os seus proto-eleitores, não gostaram e lá veio ela, outra vez, em trambolhão pelas sondagens abaixo: àquele nível o vazio não se enche só com caras bonitas e marketing, palavras de ordem contra o papão e sacras bandeiras de baú: ou há ou não há trabalhos de casa feitos, preparação para o cargo a que se candidata, ou o castelo argumentativo desaba por falta de 'substância', da tal que dá confiança ao eleitorado.
Ségolène Royal é um erro de casting do PS francês e assoma-se como perdedora antecipada se não houver uma salvadora segunda volta em que enfrente o 'ogre nº 1': se contra le Pen qualquer outro candidato "é bom", já o mesmo não o dirá o eleitor médio se tiver alternativa ao desastre presidencial anunciado que ela tudo faz por parecer ser, em absurdo contraponto à potencial vencedora que seria se se respeitasse e não desbaratasse o capital herdado dos maus anos Chirac e, também, das saudades dos anos Miterrand.
O tempo o dirá, se exagero ou não. Entretanto, e para me contrariar, 'passo-lhe' informação: os dois 'grandes' têm à volta de duzentos sub's nucleares cada um, a Inglaterra terá uns vinte ou trinta, e eles, franceses, p'raí meia dúzia de que muito se orgulham. E nem nós nem Marrocos ou a China temos algum, para seu sossego e de demais milhões de franceses, subitamente despertos para a realidade de a sua potencial PR não ter a mínima ideia do que significa, no "mundo real" da geopolítica, ter ou não ter submarinos nucleares e estar de potencial próprio no mais elitista de todos os clubes militares mundiais. E, 'eles', sabem pensar antes de votar...
(o barquito estava aqui)

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