terça-feira, fevereiro 13, 2007

«Oh Camila! é 'pitrol'!»

... e respondia ela: «branco ou tinto?» Era assim a Camila, surda aos avios que lhe pediam, aos 'recados' que, sendo líquidos, só os cumpria em volta da seráfica dicotomia que oscila no grau que vai do branco ao tinto, e não havia lá 'pitrol' para ninguém!...

A Camila e o Garnicho, dupla maravilha das tascas locais na década de sessentas, ela além de alcoólica profissional e empenhada também iniciadora sexual de uma geração quase inteira de machos locais (quem escapou? dizem que poucos, e em Santarém estava o Clementino à espera dos trânsfugas da lezíria...), ele no seu 'metro-e-meio' de artista afamado a aviar bagaços sem nunca pagar algum: «oh filh'Deus! oh filh'Deus! ai malandro que me queres matar!» - e recolhia a moeda que tinha pousado ao balcão como garantia que era dessa que pagava a conta... depois da amostra vinha o ritual de sempre: bebia e estalava a língua mas deixava uma unha para entornar no balcão e depois chegar-lhe um fósforo: à chama, aí esbracejava e soltava o seu «oh filh'Deus que me queres matar!», recolhia a moeda e ia-se, afogueado pelo bebido e pelo 'risco' corrido... e voltava no dia seguinte, sei lá se a moeda era a mesma mas o teatro a final era igual… só ou com a Camila, dueto de ouro pelas picardias sexuadas que entre eles trocavam e levavam às lágrimas quem estivesse e os ouvisse; o Petó que era um ogre a comer e a beber e, certa vez, estando aprazado um trabalho num telhado e estando ele de magnífica ressaca, exigiu ao “dono da obra” um balde de cinco litros de água lá em cima para poder ‘aliviá-la’, sendo que às dez e meia da manhã já preparava as brasas para assar uns bocados de toucinho, a insípida água trocada por um muito mais alegre branco cá da zona! e o Roque de tantas histórias, o Roque que, dramático como era e é, duma vez veio para o meio da rua e mandou parar de chover e ela parou mesmo!... O pai do Agostinho Catrola que adormecia a jogar às cartas mas nunca se enganava na puxada, era sempre carta sagrada; o "Matateu" polícia que se multava a ele mesmo quando, já bêbado, saía da tasca e dava-lhe para multar as bicicletas que estivessem encostadas às laranjeiras em volta do jardim da república; o Leão do tribunal, da Tróia, que adormecia em frente à janela, Sol em frente e pós almoço, de dedo apontado à letra que queria picotar na mui oficial máquina de escrever "Messa" tal como um matador de touros que aponta a espada, deixava-se adormecer pelo solzinho e, quando o dedo lá caía, conferia a letra e erguia o dedo para apontá-lo a outra... (nessa altura em que o Leão deveria demorar três tardes para fazer um ofício não se falava como hoje em atrasos insuperáveis da 'máquina judicial'...); o 'Janeiro', que foi para África deixando a mota em cima da ponte sobre o Tejo e as roupas em cima, apanhou o comboio para Lisboa e de lá o barco para Moçambique, houve redes ao Tejo para resgatar o corpo e, sei eu lá se houve até, missa de sétimo dia pelo corpo desaparecido… muitos anos depois e com a cheia colonial veio a dar à costa, na bagagem mil e uma estórias e um crânio de hipopótamo embalsamado que pendurou por cima do balcão da que, então, foi a cervejaria mais louca do Ribatejo e arredores: na época de verão não fechava, laborava(amos) e bebia(amos) em sessão contínua e só por respeito aos madrugadores que às cinco, cinco e meia da manhã iam apanhar os primeiros transportes públicos e lá passavam à porta é que fazíamos um encerramento de portas simbólico por cinco minutos, enquanto em grupo fumávamos um cigarro cá fora... cervejaria onde se jogava póquer de dados dentro dum cinzeiro de vidro e havia máquinas de jogo de duvidosa legalidade mas muita atracção, ela mesma onde o Janeiro, lá para as duas-três jurava ao abrir a arca que os bifes que nos ia fazer eram do hipopótamo embalsamado... e a malta ria-se mas comia-os, chupava os ossos e bebia mais uma rodada...as punhetas de bacalhau e o magusto, os bailes das "barroas" na Quinta da Alorna e as fitinhas que as meninas (nos) vendiam para pôr na lapela enquanto dançávamos... o Fernando 'electricista' mais o João Flor (não confundir com os 'bracaté') que veio de Nª Srª do Almurtão perto de Idanha-a-Nova e por cá ficou, hoje não se sabe bem se foi ele o adoptado ou se foi a vila-cidade que ele adoptou, os seus já típicos frascos forrados a papel de prendas em cima dos balcões das pastelarias e onde quase que não haverá quem não lhe deixe uma moeda do troco da bica ou do tabaco: o João Flor é ‘nosso’!, sendo que o "Fernando electricista" foi o maior vendedor de automóveis usados da península ibérica e ilhas, trafulha com casa cheia igual nunca por cá se viu! acabou por fugir para os ‘states’ cravejado de dívidas e sem fortuna delapidada conhecida...; o Ramalho barbeiro que vivia com a mãe na Gouxaria, na quinta dos Mascarenhas, e tinha um buraco na testa deixado pela placa de saída da vila que, depois dele e da sua velhíssima (e mete velho nisso… quem se lembra da ‘trotineta’ a pedais do Ramalho barbeiro?) motoreta por ela “passarem” deixaram-na só com metade da inscrição, e já não sei e não sei se alguém se recordará se sobrou o “Alme” ou se se foi o “eirim” agarrado à testa bêbada do Ramalho e deixando-lhe um buraco que 'mexia' quando ele falava, Ramalho de olhos verdes que, a cálices de Porto ou a minis, passava tardes inteiras a sorrir e a falar com as máquinas de jogo, seduzindo-as para cantarem os prémios que, volta não volta, até lhe saíam… o mesmo Ramalho que incompatibilizado por razões comerciais com a EDP fez um sábio encolher de ombros quando lhe foram cortar a luz à barbearia pois os seus três metros quadrados eram fronteiros a um candeeiro público e as luzes do semáforo colado à sua porta até lhe davam um certo ar modernaço, de discoteca... e, ora a cereja da história, acabou por vender por tuta-e-meia o contador desactivado a um electricista que lá foi arranjar as patilhas!... do Manuel Vinagre que, estando gordo demais o médico receitou-lhe uma dieta de saladas e ele ainda engordou mais pois, ele, médico, o dr. Álvaro, esqueceu-se de falar-lhe nas quantidades e ele comia alguidares de salada, vários ao dia… Do Batista e da sua tasca, o pátio nas traseiras onde ficavam os barris e onde se comiam, à sombra da árvore, as melhores bifanas da vila em caralhotas quentinhas, pão também lá feito… o Batista que se abastecia para o tinto em Vale da Pinta, Cartaxo, e o seu vinho era afamado, cá na zona de brancos, mesmo que brancos com grau que é feio dizê-lo… e, aqui, ainda me lembro eu das motorizadas que corriam alegres as ruas e os cafés tronitando esganiçadamente «o Batista vai abrir o barril às cinco!» e era a debandada geral, todos a tomar lugar…

E doutras, tantas estórias… dos tempos do ‘Solidó’ e do ‘Snobíssimo’, tanta estória de Almeirim e dos seus ‘cromos’ que há por registar e contar…

Quando é que alguém – que não eu que até nem sou de cá e só vim já tarde e com a tal cheia - conta estas ‘estórias’ da História de Almeirim? destes “cromos” locais, as “vedetas”, as personagens reais que ‘os velhos’ recordam e eu, por sorte e quando calha, lhes vou ouvindo deles falar?

…contam os velhos e eu hoje lembrei-me: «Oh Camila, é pitrol!» «branco ou tinto?», gargalhava ela, surda a qualquer outro palhete…

(imagem, identificada como "Ostade - Taberna de aldeia com quatro figuras", fanada aqui)

3 Comments:

Blogger vidinha said...

Gosto de "ver" o meu Ribatejo cantado assim. Ai que saudades de casa!

11:54 da manhã  
Blogger Barão da Tróia II said...

Excelente post meu amigo, reaviva a saudade desses tempos de sonho. Boa semana

12:03 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Falta aqui um grane cromo,o homem que encontrei a contar "estórias" com mais graça.O Zé Gato.Sobre o barbeiro Ramalho tenho coisas passadas com ele que só por si davam um livro.Qualquer dia começo a contar as venturas e desventuras do João Ramalho.A placa perto da Compal foi partida com a motorizada que...o levava todos os dias para a Gouxaria...naquele dia a placa não se desviou..

9:00 da tarde  

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