quinta-feira, junho 15, 2006

(só falo na presença do meu advogado)



Gostava que ninguém me conhecesse, que este blogue fosse tão anónimo que o podia suicidar. A seguir a esta frase ia escrever "é como na vida real: ninguém se mata sabendo que há quem o conheça, quem sabe estime". Que frase de merda: por isso intercalei um desculpador 'ia' e olho a foto que escolhi buscando-lhe outras virtudes inspiradoras além da matéria fecal de vitimizar a vinda duma velha conhecida, quase uma amiga: eu e ela já tivemos os nossos momentos e volta não volta ela vai entrando com a confiança de quem já não precisa de pedir licença.

É uma moínha psíquica que vai subindo rotações até encher o quotidiano, os gestos e as atitudes, uma indolência de desistência que enche, enche, verga ombros e embaça olhares, enche poços de águas que se turvam e enche, enche e ameaça transbordar molhando a farpela post a post cosida, alfaiate de ilusões que esmerei ser. Outra frase de merda. Haverá um dia e uma noite em que partirei abandonando o blogue, edital de mim nome cara afixados em praça pública, tétrico pelourinho. (esta insistência nas frases de merda, lamento mas vai mesmo assium) Não sei se será num dia e o Sol mostrará o quão negro é o âmago da sua luz, ou a escuridão adensará o luar num branco leitoso, cor que não é cor pois afoga todos os tons antes sentidos. A noite e o dia, a luz negra da irrealidade, ontem hoje e amanhã.

Desde ontem que chove e a Primavera foi-se: regressou a instabilidade e olho a foto e penso, penso que post de merda é este, afinal quem eu sou e porque me sinto assim: não sei, é a verdade. Se em muitas coisas que ralam e móiem conheço origens e causas há por trás delas a primeira que me escapa, masoquismo de requinte e - vejam só!... em blogue publicado. Conheço-a. Não é de ontem que chove e sei por experiência que os chapéus não me protegem, o Sol e o negro que o turva e ensombrece, o branco leitoso do luar que apaga a realidade e fá-la escapar-se na massa leitosa que a engole.

e pergunto-me como é possível ter um blogue sem correr o risco de, um dia uma noite uma primavera que termina, não se escrever um post assim.

Velha amiga: vai-te embora, eu estou farto de ti. Olha só o que me fizeste escrever: as letras mais depressivas que encontrei no alfabeto do dia, mais a mais recheadas de matéria fecal. Daí o título: num estado destes e com um olhar assim, apetece dizer que só falarei na presença do meu advogado. Estão a ver como ainda consegui juntar mais uma frase de merda? e titulei-a e tudo. Vou terminar o post, olhar bem a foto, ter uma conserva franca com esta velha amiga, a puta da depressão. Dobro-a: já o fiz antes e isto não é um jogo onde a bola é redonda: é o branco leitoso que cala o além-mundo, cinco centímetros além de mim: ouço e vejo e sinto e não os percebo e imagino a felicidade como vivendo longe, muito longe deles. A solidão perfeita, a evasão perfeita, e o silêncio.

Vou olhar melhor a foto (porque o prometi) mas não me vou ralar muito: a seguir vou ver fotos de carros ou pornografia, aqueles em múltiplos formatos e esta em não menos múltiplas posições. Vou mandar à merda esta cabrona que me levou a escrever isto, amarfanhá-la e depois esvaziar a reciclagem. Mesmo que, qual spam, outra Primavera que termine abrutamente a leve a regressar, atazanando-me, descobrindo assim o esponjoso do cérebro, o leitoso doentio. Águas turvas, chuvas fora de época, chapéu sempre curto, a costumeira constipação depressiva desta sedutora que me visita.

E - a grande questão: porque é que eu publiquei isto? não digam: se não o sei, suspeito.

(a foto que ganhou destaque que lhe era por certo insuspeito estava aqui.)

2 Comments:

Anonymous IO said...

1. A foto é-me indiferente;
2. Já falta pouco, 6 dias, para a Primavera se pôr a andar;
3. Facto, és capaz de escrever estas frases todas e com certa qualidade;
4. Gosto sempre de ver os desenhos do 'Bertone', um nome que me traz boas recordações;
5. Vou dormir, até amanhã.

1:37 da manhã  
Blogger Carlos Gil said...

não entendes

3:24 da manhã  

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