quinta-feira, dezembro 28, 2006

A minha crónica de Natal: José e Rosa, Rosa e José

Os sentimentos humanos mais fortes, ‘especiais’ - e falo principalmente no amor e seu júbilo, a paixão, pois não há ódios atraentes e das lágrimas há poços que metem medo, essas ternuras do existir sempre me cativaram e, sem ardor, torno-me seu quixote. E o Amor, esse…

Para os jovens é o riso do crescer, os rubores deliciosos, logo vem o “fartar vilanagem” em dose XXL de emoções e já no poente, no outono, por vezes cai do céu um manto que nos cobre e brilham achas que incendeiam alvas cãs, tapam engelhadas agruras, agitam-se vidinhas malsãs, uma paixão desgarrada cai-nos nos braços e brilhamos. Brilhamos, pois um Homem e uma Mulher apaixonados emanam luz de brilho, cor e tom especiais: eu, sempre romântico e sempre ciumento, reconheço e confirmo-o quando os vejo.

Por norma literária a vida dos amantes é voo de pássaros cegos, desesperados por uma praia um rochedo onde arrulhem o seu amor como eternos pombos que são, grandes, que por crescerem envelhecerem e abrirem as suas asas sobre o mar – voarem!, não merecem a ostracização do rude grasnar. Nunca. Pois eles, amantes, sussurram uma língua bela demais para tal vozear quando o manto cai dos céus e, em graça, os cobre e se apaixonam. Está nos livros e é da zoologia que amantes e pombos arrulham, grasnam os corvos e outros que tais. Também lá está, nos livros, que há sempre vilões que tentam impossibilitar esse voo chamado felicidade e liberdade, seja por fobia às próprias ou, freudeanamente, pelo imenso medo que têm em voar, e enciúmam quando levantam os olhos do chão e vêem, vêem o voar.

Depois há ‘a vidinha’: não se chega ao pé do ocaso sem um percurso, compromissos e ligações, juras d’outros tempos doutros mantos, luzes que a seu tempo nos caíram e nos iluminaram mas que o prazo, o percurso ou se calhar os compromissos, fundiram, apagaram. As marcas na coronha da vida, quase sempre o gasto couro forrado em cicatrizes e sedento, sequioso de ternuras. A vidinha. Felizes os que disserem que não. A vidinha, o social, a pirâmide humana em que a larga base barafusta, inveja e bica os lugares altaneiros, aqueles onde se senta a felicidade via boleia do Amor, amor que ‘eles’ dizem e resmungam que é e está fora d’época. A larga, gasta e infeliz vidinha da base olha, olha e inveja, inveja José e Rosa, Rosa e José. A pretexto e sem ele, ‘por outras razoes que se alevantam’, jogando o jogo da cadeira do poder dentro ou fora de portas, com ou sem pretexto a vidinha não aceita que o manto tenha caído assim tão perto deles e não os tenha tocado e, claro que tudo em compasso e batuta mui social e politicamente correcta, vá de zurzir neles, nele, Amor. Pois não é o político ou o social que perturba: é mesmo o Amor.

Claro que o Mundo não é assim. Claro que há múltiplas razões, todas muito socialmente inócuas e preservadoras de tradições e outros quistos para a turba lapidar o Amor quando o vê soltar as suas asas e voar, livre, ignobilmente livre: “pudera lá ser… aos sessenta’s amar, amar de apaixonado, ainda por cima correspondido… oh memória, oh vidinha, oh minha desgraça…” – aos que algo lhes falta, sobejam-lhes razões para invejar. Assim, e porque o Mundo não é assim feito de amor e felicidade, a turba invejosa tudo faz para que os pombos se cansem de voar, voar, amar, e pousem nas águas poluídas deste longo braço lezíreo onde, por agruras, peixes e bacilos, plâncton e algas, detritos e às vezes nenúfares, tudo e todos bóiam, infectando-se mutuamente: “pudera lá ser… afinal a poluição e a infelicidade são o nosso fado, são de todos e não escaparás”

Menos do voo dos amantes, aqueles que redescobrem nos traços da vida rugas que afinal são ternuras, nos olhos que sorriem lêem uma força nova e mais preciosa que títulos ou comendas, a força do Amor orlada com o seu “crème de la crème”, a paixão - eu avisei: não resisto a uma estória d’amor e sou um adjectivador abusador…, e, glosando gestas épicas ou romances de empalidecer de vergonha novelas e sua afícion, Rosa e José-José e Rosa sorriem e enlaçam o seu mais precioso bem que tantos invejam, o seu carinho mútuo, o seu amor.

O Autor, esse tirano da ficção, costuma resolver de tiro-e-queda e ou mata os vilões ou em liberdade criativa arregimenta-os para padrinhos do ‘enlace’, perdulário e tolerante mingua-lhes três linhas em nicos de felicidade e fecha em rosa as páginas finais. Eu já fechei este ‘conto’, e ainda não tinha escrito uma letra e já sabia qual o final que lhe desejava, eu que não voo mas gosto de ver as gaivotas voar. Na terrinha das nossas vidinhas há romance, há bem-querer no ar. Vocês conseguem murmurar como eu, louvar o benefício de lhe assistir, nem que um pouco invejoso um pouco esperançoso de, um dia, no meu ocaso, poder por ele, manto de luz, assim suspirar?

Bom Natal a todos.
(imagem daqui)

2 Comments:

Blogger Barão da Tróia II said...

Soberbo meu amigo, um excelente texto, como alias é seu apanágio. Um abraço

8:25 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Espectacular !!
Um abraço e um Bom Ano

Tómané

1:51 da tarde  

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